Aqui estão alguns pequenos contos sobre trabalhar pela primeira vez com atendimento ao público em lingua espanhola e catalã.
3 meses trabalhando num café em Barcelona e…
A Catala indecisa
Pouco a pouco o catalão tá entrando no meu vocabulário quotidiano. Todo o vocabulário transacional do café já tá gravado no meu cérebro:
Bon dia, bona tarda, bona nit Petit, mitja, gran? Amb llet da civada o normal? Amb gel o calent? Amb tarjeta o efectiu? Adeu, merci, moltes gràcies, que vagi bé, etc etc etc.
Esse vocabulário está sendo construído mica a mica a partir da minha curiosidade e necessidade de entender o que os catalães me pedem diariamente.
Não acredite que o atendimento ao cliente aqui sobrevive somente no castelhano, não. Tem muita gente que faz toda a interação em catalão, independentemente de você saber falar catalão ou não. Independentemente de você entender o catalão e responder em castelhano, algumas vezes eles te tratam com mau humor se você não responde em catalão.
No meio desse processo havia uma cliente que sempre me pedia a sua dose de energia pós-almoço num copo médio de café americano gelado. Fazia o pedido inteiramente em catalão enquanto eu batalhava para internalizar aquele diálogo e responder em castelhano.
Com o tempo e aprendendo o transacional catação, a chave virou e eu comecei a respondê-la em catalão. Para a minha surpresa, a hora que ela notou a mudança de idioma, ela decidiu que falaria comigo somente em castelhano.
Agora cada pedido é um papo de louco entre a brasileira falando catalão e a catalã falando castelhano, só pra me contrariar.
O cliente do “O de sempre”
Este moço vem quase todo dia entre o ermo das 18h e o agito das 19h — última hora de atendimento do café.
Pede sempre a mesma coisa: um matcha gelado com leite de aveia.
Certo dia ele me desafia pedindo “o de sempre”. Pra minha infelicidade, eu ainda não havia decorado “o de sempre” dele. Eu poderia ter perguntado? Claro que sim, mas por sei lá qual motivo eu decidi trucar um palpite — “um latte frio com leite de aveia?”.
A cara de decepção foi tão perfurante que eu nunca mais esqueci “o de sempre” dele.
Daquele dia em diante eu decidi usar aquele momento constrangedor como motivação para ganhar a simpatia desse homem de volta.
Depois de todo “hola” desanimado que ele me dava, eu me embutia de todo o bom humor e técnicas de bom atendimento ao cliente que só os brasileiros sabem para descrever “o de sempre” e puxar conversa.
Eventualmente eu ganhei o cliente de novo. Agora ele aparece bem humorado e ainda puxa papo comigo sobre viagens e sobre o cenário imobiliário caótico de Barcelona.
Desafio concluído com sucesso.
A minha melhor cliente
Todo final de semana, a melhor cliente de todas vem e transforma o chão do quiosque de preto em branco.
Certo dia eu estava de costas para o balcão e quando ouvi um “Vamos, Trufa! Venga, vamos…Trufa!”. Me virei para entender o que estava acontecendo e dei de cara com dois olhões pretos me olhando. Havia ali um rabinho balançante, umas orelinhas dobradinhas e uns pelinhos brancos que cobriam uma cachorrinha gorducha empacada na entrada do quiosque.
Não é preciso muito pra me fazer derreter pelos clientes caninos que passam pelo meu trabalho, mas a Trufa é especial. Ela não só é simpática por personalidade, mas também pela sua nacionalidade: é uma brazuquinha.
E ela não é só minha cliente favorita, mas também de outros estabelecimentos de Passeig de Grácia. Todo sábado ou domingo ela passa em frente ao café e faz o mesmo ritual: ela empaca na entrada do quiosque e só sai depois de receber uma bela coçadinha na pancinha. De lá ela sai toda espivitada pelo Passeig de Gracia, fazendo suas outras paradas nos outros estabelecimentos onde ela também é conhecida.
E eu fico lá varrendo os seus pelinhos brancos, feliz da vida e com as energias recarregadas.
O viciado em seduzir
Todo sábado de manhã no quiosque aparecia um loirinho cujos óculos escuros seguravam o cabelo tal qual uma tiara. Chegava no balcão e pedia o café de sempre com um sotaque levemente afrancesado, uma sobrancelha levantada e um sorrisinho de lado. Apesar de o francesinho ter tudo pra ser um sedutor, os artifícios sensuais dele me soavam mais divertidos do que qualquer coisa.
A cada nova semana, ele trazia novos artifícios para as nossas interações. Primeiro me perguntou de onde eu era, e me contou que sabia falar um pouco de português — e falava bem, inclusive. Depois falava que queria conhecer o Brasil. Outro momento ficou uns minutos contando sobre um documentário sobre um mágico que havia feito um truque famoso numa locação turística do Rio de Janeiro.
Todas as interações sempre terminavam com uma piscadela de um olho só.
Até que ele nunca mais apareceu. No meu imaginário, ele finalmente encontrou uma namorada ou outra barista pra seduzir.
Uma senhora rica ou não?
Todo domingo ela separa uma Ara, um jornal local, no balcão e me cumprimenta com simpatia — “hola cariño! ¿Cómo estás?”. Trocamos amenidades por alguns segundos até que ela pega a sua bolsinha de moedas e repete o bordão “a ver si hoy estoy rica o no” enquanto as moedinhas caem controladamente sobre o jornal para serem escolhidas como pagamento.
Um belo dia, essa senhora estava rica demais. Abriu a bolsinha de moedas e não deixou cair nenhuma moeda, apenas uma nota de 50 euros. Infelizmente, por política da empresa, eu não posso aceitar notas de 50, já que acabariam com o meu troco de caixa.
Pela primeira vez eu vi a decepção no olho daquela senhorinha gente boa. Vi toda a simpatia dela ir embora. Naquele dia ela não comprou o jornal e foi embora desapontada por não poder repetir o seu ritual domenical.
Felizmente no outro domingo ela estava de volta, menos rica de notas, agora com suas várias moedinhas repetindo o seu ritual domenical.
O inglês carrancudo
Eu sempre me impressiono com clientes anglo-hablantes que falam muito bem o castelhano e sem tanto sotaque. Não é um fenômeno muito comum em Barcelona por 2 motivos:
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Muitos deles têm certa preguiça em aprender o castelhano, já que muitos estabelecimentos e pessoas falam também o inglês devido ao alto número de turistas na cidade.
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Dos que falam o castelhano, muitos têm um sotaque que denuncia facilmente a lingua de origem deles
Eu tenho um cliente que tanto não cai nesse estereótipo que quase passa por um local: um ruivo carrancudo. Chega sempre no quiosque pedindo um expresso duplo com uma voz grossa e as sobrancelhas franzidas.
A real é que aquela marra me incomodava um pouco, afinal ninguém gosta de atender gente de cara fechada. Decidi então que tal qual o cliente do “o de sempre”, eu decidi que iria ganhar a simpatia do carrancudo.
Primeira tentativa: certo dia ele chegou ao quiosque com um colega, ambos conversando em inglês. Decidi apelar na simpatia de cumprimetá-lo na língua nativa dele. Ele fechou mais a cara e seguiu fazendo o pedido em castelhano.
Na hora eu saquei que fui moleca e que provavelmente peguei num ponto comum entre estrangeiros: ele queria falar a língua local. Eu entendo, já fui a estrangeira que se irritava quando os locais trocavam do espanhol pro inglês pra facilitar a interação enquanto eu ainda não dominava bem o castelhano. Recalculei a rota.
Na segunda tentativa eu apelei pra exclusividade: não deixei ele nem iniciar a conversa e repeti o pedido que ele sempre fazia “un expresso doble?”. O rosto dele relaxou, as sobrancelhas se afastaram e ele abriu um semissorriso, dizendo “Exacto”.
Não é um homem de muitas palavras, mas já senti que fiz um furinho na casca do casca-grossa. Na hora de entregar a bebida eu disse “sin tapa, correcto?”, já que ele sempre me dizia que não queria que colocasse a tampa no copo. Ele abriu um sorriso meio surpreso e disse “ya me conoces bien”. Mais um desafío completo con éxito.
Desde então eu anuncio o seu pedido antes mesmo de dizer oi. Ele abre um sorrisinho tímido e só concorda com a cabeça. Continua um homem de poucas palavras, mas de sobrancelhas muito mais relaxadas.
A americana gente fina
Ainda no tema de anglo-hablantes que falam bem castelhano, tenho uma cliente que se encaixa nessa definição: uma americana super querida que sempre pede um latte de caramelo. Como ela vem geralmente em momentos que não têm muito movimento, a gente consegue conversar um pouquinho além das amenidades.
Ela é originária de Chicago, filha de imigrantes indianos que está passando um tempo em Barcelona. Já fala muito bem a lingua espanhola e quer ficar por aqui, porém está passando por um problema muito comum entre os imigrantes — a dificuldade de encontrar emprego para se manter legalizada.
Certo dia ela veio pela primeira vez acompanhada, trouxe os pais no café.
Incrível como a gente acaba se sentindo íntima das pessoas em situações completamente fora do ordinário. Contei a eles como ela é uma das clientes mais simpáticas e adoráveis que eu tenho no quiosque. Os pais e ela sorriram orgulhosos.
Um dia depois ela volta ao quiosque, faz o pedido de sempre, e conversamos sobre o quanto ela esperava que com a visita dos pais à Espanha eles, finalmente, entendessem o porquê dela querer tanto ficar por aqui. Que seus pais imigraram para os Estados Unidos em busca de um sonho americano de uma vida melhor, e agora têm dificuldade em empatizar com a decisão da filha de querer sair daquele país tão sonhado.
Essa semana ela me contou que estará se mudando novamente para os Estados Unidos, mas sempre com o sonho de voltar para cá.
A catalã simpática da garrafinha térmica
No café onde eu trabalho, a marca tem como objetivo promover a diminuição de plástico e papel. Eles têm uma promoção de desconto bem interessante nas bebidas se você traz de casa a sua garrafa/copo térmico ou caneca. Essa iniciativa acaba fidelizando bastante alguns clientes.
Aos sábados a senhora catalã chega com a sua térmica verde e me pede um café quentinho com leite de aveia. Assim como a maioria dos catalães, ela me pede em castelhano pra facilitar a comunicação.
Isso mudou num momento em que ela me viu falando alguma das frases transacionais básicas de catalão com outro cliente e soltou um “você já tá falando um pouco de catalão!” e abriu um sorrisão.
É interessante notar o quanto faz diferença falar o catalão em Barcelona, ainda que seja um pouquinho. As pessoas te tratam melhor, com mais simpatia e te acolhem mais.
Desse dia em diante ela vem ao quiosque e fala quase que inteiramente comigo em catalão, dizendo que é pra eu treinar. E o melhor é que ela é muito querida e não força a barra — comportamento não muito comum entre os que forçam falar em catalão com alguém que não domina a língua. Tem dias que me sinto menos confiante em falar a língua e ela acolhe o meu silêncio, puxa pouco papo ou muda pro castelhano.
Às vezes chama até o marido para vir me ouvir falar catalão, acho isso engraçado.
A real é que se eu entendo 50% do que ela diz é muito, mas tenho esperança de eventualmente entender uns 80%. Quem sabe…