Apesar de comum, o nome Thaís já me rendeu algumas histórias interessantes.

Coxas, alemães e Alexandre o Grande

Meu nome é Thaís com H, e esse H é muito importante pra mim.

Me perdoem as Tais ou Tays ou outras possíveis variações, mas esse H é crucial pra simetria visual do nome, sabe? Tem um quê de cabalístico, numerístico, ou je ne sais quoi sobre como TH e o IS são simetricamente conectados pelo A no meio da palavra.[TH - A - IS]. Um Tais escrito com apenas 4 letras me soa curto demais, falta algo ali. Existe um vazio visual que eu, mesmo sendo designer, não consigo te explicar por que pessoalmente me desagrada.

Apesar do meu apego ao H, eu sei que ele sonoramente é completamente descartável na língua portuguesa. Por outro lado, o mesmo não acontece em inglês. Enquanto eu vivi na Inglaterra, esse H fez muita diferença.

A pronúncia do meu nome não costuma variar tanto de país para país. Na Itália me chamavam de THAÍSA. Aqui na Espanha meu nome já vira um THÁIS. Mas foi chegar na imigração da Inglaterra, enquanto o policial lia o meu passaporte em voz alta, que eu me toquei como o meu nome seria pronunciado pelos próximos 12 meses em terras britânicas: FÁIS.

O fonema que a união das letras TH produz em inglês é tipo um som de F com a língua presa. Meu nome soava tal qual a palavra THIGHS, que significa “coxas”.

Muito prazer, meu nome é Coxas.

Pensei em pedir para as pessoas me chamarem de Thai para suavisar um pouco a humilhação, mas essa palavra nada mais é do que “tailandês” em inglês. Também cogitei usar meu apelido de toda a vida: Thís (se pronuncia Tís), mas aí eu estaria caindo em mais uma pegadinha fonética, já que o som do meu apelido é tal qual a palavra “Cheese”, queijo em inglês.

Minhas opções eram: Coxas, Tailandês ou Queijo. Acabei decidindo me apegar às Coxas mesmo. Com o tempo, o constrangimento de ouvir alguém lendo o meu nome foi diminuindo, até eventualmente ele acabar na hora em que me mudei da Inglaterra.

Sobre o meu apelido, Thís, ela pode soar um pouco fora no comum para um diminutivo de Thaís. Até os 10 anos de idade, eu me debati muito com os apelidos que me davam, porque nenhum deles parecia ressoar comigo. “Thaisinha” era o apelido familiar, ou seja, só a família me chama assim. As variações de “Tah”, “Tatá” ou “Thay” nunca pareceram encaixar bem com a minha personalidade. Até que certo dia, um amigo do ensino fundamental tirou da cartola o “Thís” e, então, eu assumi oficialmente esse apelido. Inclusive, ele pegou tanto que praticamente todos os meus amigos brasileiros me chamam assim até hoje.

Por muito tempo eu me senti única com aquele apelido, como se mais ninguém no mundo tivesse um igual. Tudo mudou quando, alguns anos atrás, eu conheci uma menina cujo apelido era This também, como um diminutivo de Beatriz. Depois de alguns anos, eu fui surpreendida novamente quando, numa viagem à Bolonha, eu conheci um alemão chamado Thís. Mentira, o nome dele era Thieis, porém a pronúncia era de “Thís”.

Aqui vai uma breve descrição de como foi essa conversa (traduzida):

- Qual é o seu nome?

- Thais, e o seu?

- Thieis — Thaís ouve o nome “Thís” e acha que ouviu errado.

- Desculpa, você pode repetir, por favor?

- Thieis. — Thaís ouve o apelido novamente e fica ainda mais confusa.

- Você poderia soletrar, por favor?

- Claro, é T-H-I-E-I-S — diz o alemão começando a ficar confuso com aquela interação.

- Ahhhhh, agora eu entendi. Caramba, o seu nome soa igualzinho ao meu apelido, e se escreve quase como o meu nome!

Aquela conversa, ao estilo pegadinha da Beti — “O meu também é Beti” — foi tão inusitada que acabou gerando uma amizade imediata entre mim e o “chará” alemão. Além de uma história engraçada para contar.

Falando em história para contar, você sabia que o nome Thaís tem origem persa? Eu não sabia disso até o ano passado, quando eu fui apresentada a um colega iraniano do trabalho do meu marido. Ele me contou que esse nome é relacionado a uma figura histórica bem controversa para os persas.

Thaís foi amante de Alexandre o Grande. Foi ela quem supostamente, numa noite de muita bebedeira, incitou Alexandre o Grande a incendiar os palácios de Persépolis como vingança pelo ataque persa à Atenas.

E sabe o que é mais interessante? Que enquanto Thaís era amante de Alexandre, Roxana era a sua esposa. E Roxana é o nome da minha mãe, que foi dado pelo meu avô como uma homenagem a essa figura histórica. Isso quer dizer que talvez nas vidas passadas eu e minha mãe tivéssemos uma treta. Sorte que a gente deixou as mágoas para trás.

Falando em família, quem escolheu o meu nome foi a minha irmã. Na época ela estava indecisa entre dois nomes: Rebecca ou Thaís. No final das contas, minha mãe escolheu Thaís, porque ela acreditava ser um nome mais “neutro”, sem tantas possibilidades de apelidos ou variações sonoras. Mal ela sabia…

Atualmente eu fico feliz que minha mãe optou por Thais, já que minha melhor amiga se chama Rebecca e é bom que tenhamos nomes diferentes. Senão, certamente, a nossa comunicação seria mais parecida com a pegadinha da Beti.

“O meu também é Becca”.

Eu sempre gostei do meu nome. Ele é tão identificavelmente brasileiro e ao mesmo tempo não tão óbvio. Ele acabou adquirindo personalidade própria a cada novo lugar, e eu gosto de ouvir como ele é falado dependendo de cada boca e nacionalidade — menos nas de língua inglesa.

Muito melhor ser Thaís e poder ter história pra contar do que ter um nome imutável tal qual Maria ou Ana, por exemplo. Brincadeira, nada contra esses nomes, acho ambos lindos.

Tá aí, Ana é outro nome que eu acredito ter um jeito certo de ser escrito, com o N duplo, tipo “Anna”. Tem algo na simetria do nome que faz sentido demais com os dois enes, mas aí a gente vai entrar de novo no assunto do começo do texto, e tal qual o meu nome, eu não vou conseguir te explicar por que tudo isso faz sentido na minha cabeça.

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